Se devidamente orientada, a
presença cada vez maior de familiares em unidades de terapia intensiva (UTIs)
de hospitais pode ter impacto significativo sobre a melhora de estado de saúde
de pacientes. É o que defende um projeto de pesquisa nacional, realizado com
aval do Ministério da Saúde, que está alcançando, até o final deste ano,
aproximadamente 40 estabelecimentos de saúde de todo o País.
O “Projeto UTI Visitas” é
coordenado nacionalmente pelo Hospital Moinhos de Vento, por meio do Programa
de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde
(Proadi-SUS), e atinge alguns dos hospitais mais representativos das cinco
regiões brasileiras. A meta é implantar e avaliar o modelo que flexibiliza a
visita familiar em UTIs de hospitais.
Na região Amazônica, a iniciativa
está sendo implantada no Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), em
Santarém, na região oeste do Pará. Nesse período, dois familiares próximos de
cada paciente terão direito de permanecer na UTI por até 12 horas consecutivas
por dia. Para isso, estes parentes serão capacitados em boas práticas para
visitação ao paciente gravemente enfermo.
Contato familiar
As internações em UTIs trazem
sentimentos de angústia e preocupação a familiares e amigos. E o pouco contato
com o paciente, proporcionado por modelos restritivos de visitas, tem o
potencial de agravar esses sentimentos. Por outro lado, o distanciamento de
entes queridos pode também ter impactos sobre a saúde dos que estão sob
cuidados em unidades de terapia intensiva.
“Acreditamos que a implantação
desse novo modelo pode ser um marco na mudança da forma como as UTIs veem a
visita aos pacientes no Brasil. Provavelmente, poderá mudar muito o curso de
situações da terapia intensiva que não são pensadas hoje”, avalia a diretora
Técnica do HRBA, Lívia Corrêa e Castro.
A visita social conta com
horários específicos e será destinada a demais familiares e amigos, de acordo
com as preferências dos pacientes e seus familiares mais próximos. “O projeto
visa ainda reduzir a incidência de delirium, que é uma forma de disfunção
cerebral aguda, muito frequente em pacientes críticos. Conduzimos estudos antes
e depois de abrir a visita ampliada no Hospital Moinhos de Vento. E lá
verificamos que a presença do familiar na UTI ajudou a tranquilizar e
reorientar o pacientes', explica a farmacêutica Rafaela Moraes, que faz parte
da equipe de implantação do projeto. Os familiares engajados contribuíram para
um melhor entendimento por parte da equipe assistencial da UTI. Esses benefícios
colaboraram para redução pela metade dos casos de delirium em pacientes
internados.
O delirium é uma síndrome
orgânica cerebral aguda, potencialmente reversível, caracterizada por um estado
mental alterado. Esse pode ser hiperativo, com aumento da atividade
psicomotora, hipoativo, com lentificação psicomotora e redução de resposta a
estímulos externos, ou misto, com componentes hiperativos e hipoativos.
“Considerado um problema de saúde pública, o delirium pode estar associado a
declínio cognitivo, maior risco de morte, hospitalização prolongada e maiores
gastos em saúde. Logo, a redução da ocorrência de delirium tem o potencial de
evitar estes desfechos indesejáveis”, completa o médico líder do projeto, Regis
Rosa.
Modelo para o Brasil
O estudo terá cerca de quatro
meses de duração em cada centro avaliado. Após este período, serão realizadas
as análises de segurança e efetividade da política de visita ampliada nas UTIs
brasileiras. Os resultados serão entregues ao Ministério da Saúde, para
definição se a visita familiar ampliada na UTI será adotada como política de
saúde pública para todo o País.
“Esse modelo de flexibilização
dos horários de visita familiar na UTI, apesar de pouco frequente, já é visto
em outras instituições, tanto no Brasil, quanto na Europa e América do Norte.
Evidências da literatura apontam que esta tecnologia é exequível e segura: não
há aumento das taxas de infecção hospitalar pela maior presença de familiares
na UTI, desde que estes sejam adequadamente orientados”, contextualiza a
pesquisadora do Proadi-SUS, Mariana Martins.
O Hospital Regional do Baixo
Amazonas, que também integrará a rede de hospitais avaliadas, é uma unidade
pública de saúde, pertencente ao Governo do Pará e administrado, desde 2008,
pela Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar. O
hospital atende casos de média e alta complexidades e é referência em ensino e
pesquisa na região amazônica.
O HRBA foi o primeiro hospital
público do Norte a conquistar o certificado máximo de qualidade, a ONA 3 –
Acreditado com Excelência. Em 2016, também foi considerado o melhor hospital
público do Norte e Nordeste do Brasil.



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